Deve ser bastante complicado o processo de adaptação de uma mídia para outra. Talvez, através da experiência de anos praticamente trabalhando juntos, o cinema e a literatura tenham hoje uma linguagem parecida, que facilita assim todo o processo. Contudo, mesmo com os diversos maneirismos desenvolvidos, adaptar um texto de cunho literário para a película ainda é bastante complexo, visto que são inúmeras as peças adaptadas que não agradam grande parte dos leitores da obra original, sem falar do público-alvo, que na verdade é o público geral, ou seja, envolve tanto os leitores quanto os curiosos.
No caso das obras (literária e fílmica) de Stardust, fica a impressão de um trabalho bem executado em ambas as mídias. Comecemos, então, pela obra em papel. Escrita pelo inglês Neil Gaiman, bastante conhecido pelo público leitor de histórias em quadrinhos (foi o criador da série Sandman, que foi publicada pela Vertigo, braço de quadrinhos adultos da DC Comics) e autor de diversos romances com clara inspiração de autores como Edgar Alan Poe e H.P. Lovecraft e ilustrada por Charles Vess, Stardust nasceu como uma idéia de escrever para o público infanto-juvenil, sob a perspectiva de um contos de fadas, porém com um toque moderno, no que tange a linguagem e aos aspectos visuais. Gaiman, aliado as belas (e, muitas vezes sinistras) ilustrações de Veiss, apresenta nesta obra uma nova roupagem para os métodos clássicos dos contos de fadas, dando ênfase ao contraponto entre o lado lúdico e fantástico dos mesmos, com toques de violência estilizada e sexualidade. Devido a estas características, o projeto concebido como infanto-juvenil talvez não seja, na verdade, indicado a crianças.
Stardust acompanha a trajetória de Tristan Thorne, um jovem (meio humano, meio ser fantástico, por assim dizer) e sua jornada em busca de uma estrela cadente, que cai numa terra (fantástica) distante e que o mesmo prometera a mulher por quem estava apaixonado, como prova de amor e recompensa por um compromisso de casamento desta com ele. Neste ínterim, serão apresentados diversos personagens durante a cruzada de Tristan, dentre eles os príncipes Primus, Tercius e Séptimus, a bela Yvonne (na verdade, a estrela cadente), além de uma bruxa, de um unicórnio, de um anão, ou seja, uma verdadeira salada de personagens clássicos da literatura fantástica são apresentados no romance ilustrado de Gaiman e Vess. A obra mostra-se bastante divertida e curiosa, através de diálogos simples e diretos, porém com diversas referências as obras do gênero, além de ser brilhantemente complementada (e, por que não, expandida) através das belas ilustrações de Veiss, que, com bastante sutileza e sensibilidade alterna momentos de ternura e violência com bastante impacto aos olhos do leitor. Por fim, uma história que prende o leitor através da ironia e do carisma de seus personagens, fazendo uma costura bastante competente das histórias clássicas de horror com o clima gótico dos contos dos irmãos Grimm.
Já a versão cinematográfica concebida por Matthew Vaughn em 2007 apresenta diferenças consideráveis em comparação ao romance original, contudo o faz de maneira respeitosa e, até certo ponto, inventiva. O filme Stardust deixa um pouco de lado a tensão e a violência surreal e aposta num ambiente mais leve, com uma aura de contos de fadas mais tradicional, substituindo a ironia pela comicidade. Ou seja, há uma clara mudança no tom e na abordagem da adaptação cinematográfica, porém mantendo os elementos principais da obra original.
Quanto ao enredo em si, Vaughn e Jane Goldman (co-roterista do script de cinema) o alteram consideravelmente. Alguns personagens são limados (como o ser peludo e baixinho que acompanha Tristan no início de sua jornada em busca da estrela cadente), outros ganham mais destaque na trama (como o capitão pirata Sheakespere, vivido de forma afeminada pelo veterano Robert De Niro – excepcional), enquanto alguns foram acrescentados a trama (o negociador vivido por Rick Gervais, da série The Office original, não existe na obra original. Contudo, como destacado acima, a “alma” do romance continua presente nesta versão, que funciona como um complemento a obra mãe, sendo assim muito bem sucedida.
Com um elenco de ponta (além de De Niro e Gervais, conta ainda com Claire Danes, Michelle Pfeiffer, Mark Strong, Peter O’ Toole, Rupert Everett, Jason Flemyng e com o “novato” Charlie Cox, como Tristan) e contando com uma execução técnica de primeira (da caprichada fotografia – fica a dúvida do que é real e o que é efeito visual, de tão bem capturadas foram as imagens – até os ótimos efeitos visuais e a cenografia e trilha sonora belíssimas), esta segunda incursão de Vaughn (mais conhecido como produtor das obras de Guy Ritchie) no comando de um longa-metragem mostrou-se bastante promissora e, como já confirmado por muitos críticos, encaminhou uma carreira de sucesso ao mesmo, visto que após o lançamento desta produção (que, infelizmente não agradou tanto ao público, mas foi bem com a crítica) Vaughn realizou, de forma independente, o muitíssimo aclamado filme Kick-Ass (baseado numa série em quadrinhos de Mark Millar – autor de O Procurado – e John Romita Jr.) e está confirmado como o diretor da retomada da série de filmes dos mutantes da Marvel, X-Men First Class, que abordará o início da peregrinação de Charles Xavier e a fundação de sua escola para mutantes.
Sendo assim, recomenda-se que quem tiver interesse e gostar do tema consuma as duas obras, pois ambas, de maneiras e pontos de vista diferentes, apresentam qualidades que as fazem se complementar, fazendo com que o espectador seja surpreendido duas vezes e curta, de maneira distinta, ambas as obras.
:: Links ::
Informações sobre o livro:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Stardust_%28livro%29
Informações sobre o filme:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Stardust_%28filme%29
Ficha técnica, fotos e sinopse do filme:
http://www.adorocinema.com/filmes/stardust/
Bilheteria do filme:


[...] X-Men, isso nunca foi unanimidade entre os cinéfilos de plantão. Dirigido por Matthew Vaughn (Stardust – O Mistério da Estrela, Kick Ass – Quebrando Tudo) e contando com o retorno de Bryan Singer à cadeira de produtor [...]